O Passarinho na Gaiola: Quando a Escassez Paralisou Meu Coração
- Rose Souza
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- há 3 dias
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Atualizado: há 7 horas
Será que ainda existem adolescentes como eu fui?
Com a mente cheia de ideias, sonhos, desejo de ser vista... e o coração tão travado, tão paralisado por uma névoa de insignificância, que foi capaz de deixar um passarinho morrer de fome dentro de uma gaiola.

"A gaiola aberta. A memória, finalmente, em paz."
A vergonha ainda está aqui. Relatar isso me custa. Não tenho palavras que deem conta do turbilhão que era minha cabeça naquela época. Eu namorava, e meu namorado, que gostava muito de pássaros, me deu aquele presente vivo. Em vez de alegria, o presente veio carregado de um pensamento congelante: "Meus pais não vão ter dinheiro para comprar alpiste." (em minha mente).
Era mais do que uma preocupação. Era uma certeza antecipada de abandono. A lógica da escassez — material e afetiva — falou mais alto. Na minha mente adolescente e confusa, havia apenas dois caminhos: conseguir o alpiste (impossível) ou manter o pássaro preso (a realidade que eu podia, passivamente, sustentar).
Por que não abri a gaiola? Essa pergunta me assombra. Talvez, no fundo, eu acreditasse que alguém naquela casa — meus pais, um irmão — fosse enxergar. Enxergar o pássaro. Enxergar a minha incapacidade disfarçada de cuidado. Enxergar a mim. Era um grito silencioso por socorro, disfarçado de rotina. Um teste mudo que, é claro, ninguém podia ouvir. O pássaro se tornou, sem que eu soubesse, uma parte minha trancafiada.
E assim, dia após dia, eu alimentava a gaiola com minha paralisia. E o passarinho, com a fome que eu não via, ou não me permitia ver.
Hoje, olhando para trás com os olhos de quem estuda a alma, vejo com clareza o que na época era apenas um vazio agonizante. O que eu carregava não era só pobreza material. Era o lixo cultural da escassez. A crença herdada de que os recursos — do dinheiro ao afeto — são sempre insuficientes. Um lixo que entope a mente e paralisa o fluxo do espírito, que só se manifesta com o poder da ação.
Eu estava sepultada sob esse lixo. E o pássaro, sob minha inércia.
O resultado foi cruel para ele. E para mim, foi uma sentença de culpa que levaria décadas para ser cumprida e, finalmente, ressignificada.
O tempo, essa dádiva divina, trouxe a clareza que a adolescente assustada não podia ter. Aquele passarinho não morreu em vão. Sua morte lenta e silenciosa se tornou a metáfora mais dolorosa e precisa do que acontecia dentro de mim: um pedaço de minha própria liberdade, meu instinto de vida, minha capacidade de agir e de pedir, estava definhando preso.
"Me perdoe, pequeno pássaro, por tamanha limitação."
Escrevo isso com lágrimas nos olhos e um nó na garganta. Mas escrevo, finalmente, como um ato de libertação. A sua gaiola se abriu no dia em que você partiu. A minha levou a vida toda. O processo de conhecimento e prática — minhas 12 Leis, minha fé, meu voltar-se para Deus — criou um espaço de tempo novo. Um espaço onde essa memória pode, enfim, ter outro significado.
Ela não é mais apenas a história de uma adolescente cruel. É o registro da paralisia que nasce da escassez herdada. É a prova de que nossos atos mais sombrios guardam, no centro, uma dor que precisa ser nomeada para ser curada.
"Contar essa história é um marco na minha jornada. E ela fica aqui, também, como um convite para você.
Em sua vida, já houve um 'passarinho na gaiola' — algo ou alguém que dependia de seu cuidado, mas que sua paralisia, medo ou sensação de escassez impediu que você agisse? Como você lida hoje com a memória desse momento?
Se sentir que pode, compartilhe nos comentários. Às vezes, dar nome à nossa gaiola é o primeiro passo para encontrar a chave."

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